Há uma coisa que ninguém conta sobre ser emigrante: não se vive num país. Vive-se em dois.
Estás em Lyon, ou em Genebra, ou no Luxemburgo — mas ao mesmo tempo estás em Viseu, em Braga, em Faro. Estás a trabalhar aqui e a preocupar-te com a tua mãe ali. Estás a criar filhos numa língua e a sentir noutra. Estás presente no sítio onde vives e ausente do sítio a que pertences.
Esta vida dupla tem um custo que ninguém vê. Não aparece na conta do banco. Não aparece nos papéis. Aparece nos domingos, quando ligas para casa e desligas a sentir-te pior. Aparece nas férias em Portugal, quando percebes que já não encaixas como antes. Aparece no trabalho, quando te perguntam “estás bem?” e tu dizes “sim” — porque explicar o que realmente sentes levaria mais tempo do que tens.
O problema não é a saudade. A saudade é só a parte que tem nome. O problema é tudo o que vem com ela: a culpa de ter saído, a pressão de justificar que valeu a pena, o cansaço de ser o pilar de toda a gente à distância, a solidão de não ter ninguém cá que perceba o que é isto.
E o pior é que não tens direito a queixar-te — ou pelo menos é o que sentes. “Foste tu que quiseste ir.” “Ganhas bem, não te podes queixar.” “Pelo menos não estás em Portugal com o ordenado mínimo.” São coisas que te dizem, ou que tu dizes a ti própria, para não sentir o que sentes.
Mas o que sentes é real. E carregar duas vidas ao mesmo tempo cansa — não porque sejas fraca, mas porque é objectivamente pesado.
Se alguma vez sentiste que vives entre dois sítios e não pertences completamente a nenhum, não estás sozinha. E não precisas de resolver isto sozinha.
A Bem Viver oferece apoio psicológico em português, por videochamada, com terapeutas portugueses que percebem a emigração por dentro. A primeira conversa é gratuita.
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