Histórias

Podias ser tu

Histórias de portugueses que vivem longe de casa. Os nomes são fictícios. Os sentimentos não.

"Há 12 anos que vivo em Lyon. Trabalho em limpezas, cuido dos miúdos, ligo à minha mãe ao domingo. Toda a gente acha que estou bem — e eu também achava. Até que um dia percebi que já não conseguia parar de chorar no carro antes de entrar no trabalho. Não sabia a quem ligar. Não ia falar disto em francês com um desconhecido. Precisava de alguém que percebesse sem eu ter de explicar tudo desde o início."
Maria, 38, Lyon
"Vim para o Luxemburgo há 8 anos. Ganho bem, não me posso queixar — é o que toda a gente diz, e eu repito. Mas há noites em que fico acordado a pensar no meu pai, que está a envelhecer sozinho em Trás-os-Montes, e na vida que deixei para trás. Nunca contei isto a ninguém. “Terapia” não era uma palavra que existisse no meu vocabulário. Até que percebi que carregar tudo sozinho não era força — era só hábito."
Rui, 52, Luxemburgo
"Saí de Portugal aos 22 para trabalhar em hotelaria em Genebra. Agora tenho 31, não trabalho, e a minha vida gira à volta dos horários do meu marido. Perdi a minha carreira, os meus amigos, e há dias em que não falo português com ninguém. Sinto raiva, mas não tenho “direito” — afinal, tenho uma vida boa. Precisava de alguém que percebesse que uma vida boa também pode pesar."
Beatriz, 31, Genebra
"Moro em Madrid há 3 anos. Trabalho remoto, falo espanhol, misturo-me. Ninguém me trata como estrangeira. Mas há um domingo de vez em quando em que percebo que não falei português a semana inteira, e sinto uma coisa que não sei explicar. Não estou mal. Mas também não estou bem. Só precisava de falar com alguém que soubesse o que é essa coisa do meio."
Carla, 27, Madrid
"Vivo em Paris há 15 anos. Sou a pessoa a quem toda a gente liga — os pais para traduzir papéis, a irmã para desabafar, o marido para resolver. Cuido de toda a gente. Mas quando é que alguém cuida de mim? Nunca me passou pela cabeça que podia pedir ajuda. Achava que isso era para quem não aguenta. Até que percebi que aguentar sozinha não é força — é só não ter mais ninguém."
Inês, 58, Paris

Não precisas de chegar ao limite para falar com alguém.

Estas histórias não são de pessoas em crise. São de pessoas como tu — que trabalham, que aguentam, que constroem — e que num dia percebem que precisam de um sítio para pousar o que carregam.

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